Minha filha nasceu no dia que “quis vir ao mundo”, mas o leite não. Hoje as conversas parecem já serem um pouco mais abertas neste sentido, mas confesso que há (míseros) 6 anos, só tinha ouvido sobre quão linda era a amamentação.
De início todos os choros são desconhecidos, mas saber que o berro mais agudo é de fome e que você colocou um ser no mundo e o mais básico que é alimentá-lo você não consegue, foge de qualquer controle emocional que sempre julguei ter.
Ela perdeu peso. Comecei complementos que não reagiram bem e o choro intensificava. Comentários de todos os tipos surgiam: “é só questão de tempo, logo mais você vai jorrar leite”. Isto entrava em mim como uma panela de pressão.
Lá pelo 10º dia, tive uma paralisia facial por stress. Até metade do dia, um lado inteiro do meu rosto não movia NADA. E o que já estava desesperador ficou enlouquecedor, de forma que eu não conseguia avaliar os fatos. Até que, fazendo fisioterapia, a especialista falou: “engraçado, você não tem jeito de que o seu maior sonho era amamentar”. Meu mundo parou. A resposta de tantas coisas estava ali. Quando me imaginava mãe, nem por um segundo eu pensei na amamentação. Seria um processo natural, mas realmente... por que me afetou tanto?
Me afetou porque me senti frágil e sem controle; porque há uma romantização da amamentação que me excluía da figura materna; porque embora achar que não me importava com opinião alheia, descobri que ser questionada no papel de mãe, seria o meu lado mais sensível; porque a sociedade impõe padrões que garanto que eles nem param para pensar no que estão falando e em como estão julgando. Igual falar da previsão do tempo em elevador, nasce um bebê e até o porteiro pergunta se ele está mamando bem. Jura que te interessa saber isso?
Proibi visitas e me enfiei numa bolha. Praticamente só via minha filha, meu marido ou algum especialista: medico, dentista para dar laser, fisioterapeuta ou a enfermeira da amamentação. Sim, eu custei a desistir.
Já há uma semana com o rosto que eu colocava tampão no olho para fechar para dormir e o líquido escorria porque minha boca não fechava, eu seria madrinha de dois casamentos no mesmo dia. A idéia era eu ir num e entrar com o meu pai, meu marido ir no outro e entrar com a minha cunhada e depois trocarmos as festas apenas para dar um beijo nos noivos de forma inversa.
Aos prantos, falei para o meu marido ligar para um dos casais avisando que eu não iria, que eu ligaria para a minha outra amiga. Neste momento, ouvi dele a segunda frase que traria mais respostas para toda a minha vida: “sua vaidade é maior do que a sua amizade? Você levanta esta cabeça e vai sim abraçar os seus amigos. Até porque você não sabe quando esta paralisia vai passar E se vai passar. E se esta for a sua realidade é bom a sua vaidade sem menor do que muita coisa.”
Escrevo isso e choro novamente. E isso parece que vai me acontecer tantas quantas vezes eu fechar o meu olho e rever esta cena.
Mas eu fui. Nas duas festas. Sem choro algum nos olhos e com muito orgulho no coração.
Para constar, até no centro espírita eu fui pedir ajuda. Não sou espírita, aliás morro de medo. A paralisia durou exatos 40 dias. Não sei o que houve, mas ela foi sumindo aos poucos. Não ficou sequelas a não ser os melhores aprendizados que eu poderia ter.
Eu não tive leite, mas a sua falta me trouxe força. Me livrou de julgamentos e daquela culpa excessiva que toda mãe tem. Mais do que nunca, as opiniões inseridas em padrões criados por pessoas que não me dizem nada, realmente não me dizem nada. Sou vaidosa sim, mas ela é realmente menor do que muita coisa.
Os benefícios da amamentação são infinitos, inclusive quanto ao entrosamento entre mãe e filho. Mas não prova amor. Ninguém ama menos por não amamentar - não importa o motivo.
Meu segundo filho nasceu e mesmo novamente sem leite, ele conheceu uma nova mãe: tranquila, sem culpa, sabendo que o que importa é ele me ter de bem com a vida. O que acalma o choro do filho não é de onde vem o leite e sim do amor e da paz de espírito de quem o segura.