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Refúgio: qual o seu?

Refúgio: qual o seu?

2020-02-21

Era sábado. Tomamos café da manhã em família, brincamos um pouco, fomos numa feira de rua, almoçamos sentados no chão, fomos na pista de skate, montamos pizzas com as mãos, armamos barraca dentro de casa para acamparem na sala, banho, história e cama.

Mas não é sempre assim - e antes de eu me mudar para Miami era menos ainda. Em Curitiba, eu trabalhava enlouquecidamente, mas tinha uma ‘nóia’ gigante de quando estar presente, realmente ESTAR presente: sem televisão, sem telefones, inventando programas e brincadeiras. Priorizava a qualidade do tempo acima da quantidade e defendia que meus filhos não iriam dizer mais tarde que os pais trabalhavam demais. Funcionava. Ou melhor, funcionou.

Hoje já não sei se eles realmente não dirão um dia. Confio que terá um “MAS” nesta frase: trabalhava demais, mas se fazia presente, trabalha demais mas lembro dela rosnando fingindo ser um dinossauro.

No Brasil, não tinha babá e jamais rejeitei um programa. Primeiro aceitava, depois resolvia como ia fazer. Ligava para os meus pais, sogros, avós, tios, padrinhos, amigos e quem ajudava com a limpeza da casa que me socorria de forma extraordinária (saudades Xuxu!). Mesmo tendo a cultura de carregar as crianças junto, inclusive quando são programas ‘só de adultos’ como churrasco, jantares, etc., todo aquele apoio fazia total diferença, dava-se um jeito para tudo.

Quando cheguei em Miami, há dois anos, me vi mãe e mais nada. Perdi mais que os apoios da minha incrível grande família. Perdi minha identidade. Eu gostava da workaholic, festeira, organizadora de eventos E mãe que habitava em mim. Surtei. Chorei e cheguei a dizer para quem quisesse ouvir que não gostava e que não sabia ser mãe.

Apesar de ter mantido meu trabalho do Brasil, o qual estou até hoje de forma remota (o que me salvou e me salva, afinal trabalhar com o que ama pode ser o refúgio número 1), tudo mudou. A escola de início era meio período e entre a manhã livre e o depois da aula, não havia fugas para happy hour, festas ou o famoso ‘me deixe quieta no meu canto que adoro’. Até havia, mas era pouco ou quase nada.

Demorou quase quatro meses para este stress inicial passar. Demorou mais alguns meses para eu me adaptar, relaxar e entender que era interessante desligar o computador as 3 ou 4h da tarde e ir num parque, pegar um fim de tarde na praia, jogar um jogo, desenhar ou simplesmente deixar eles verem um filme na TV. Cheguei a chorar quando liguei a televisão para que eu pudesse ter um pouco de momento sozinha. Não foi uma nem duas vezes. Foi mais. A culpa me consumia.

Fato é que era muito fácil não dar televisão ficando poucas horas com eles. Penso também que é muito fácil criticar quem é mãe full time enquanto se está atrás de uma mesa de escritório.

E as coisas vão se ajeitando... me organizei e tenho quem me ajude quando quero sair. A frequência e a liberdade de decidir sem pensar não existe mais, no entanto, hoje me vejo como alguém capaz de brincar horas, de falar sem gritar, e de estar muito mais leve do que quando cheguei aqui.

Não existe segredo. Existem fases, hábitos, momentos e lugares. Sem culpas, sem julgamentos, dando o melhor que pudermos e nos encontrando em algum refúgio para tentar manter a sanidade.

A cozinha - que também surgiu como uma tarefa diária que não fazia parte da minha rotina antes - tornou-se um refúgio. Todo mundo chega com alguma ideia para eu cozinhar menos e grito: “NÃO TIREM MINHA TERAPIA!”. Ali fico sozinha, quieta e sem culpa, afinal estou fazendo por todos.

E você, qual o seu refúgio?

*by nati

  Photo by Alyson McPhee on Unsplash
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